Se perguntar a alguém perto da idade da reforma, ou até já reformado, do que se arrepende do ponto de vista financeiro, provavelmente ouvirá uma resposta parecida: “Devia ter começado a poupar mais cedo.”
Não é preguiça, é biologia. O nosso cérebro está programado para privilegiar o presente, e isso dificulta o modo como economizamos dinheiro no dia a dia. Mas, quando compreendemos estes mecanismos, conseguimos contorná-los.
Porque o cérebro prefere recompensas imediatas?
Um dos maiores obstáculos a poupar dinheiro para o futuro é o facto de o amanhã parecer distante e abstrato. Estudos de economia comportamental demonstram que valorizamos mais recompensas imediatas do que futuras, mesmo quando estas são superiores 1.
É por isso que gastar 50€ numa experiência hoje parece mais satisfatório do que investir esse valor para usufruir daqui a 20 anos, mesmo sabendo que seria financeiramente mais inteligente.
Esta tendência, estudada pela ciência comportamental, é alimentada por vários enviesamentos:
Preferência pelo presente
O cérebro humano tende a dar muito mais peso às recompensas imediatas do que às futuras, mesmo quando estas últimas são superiores. Esse fenómeno - present bias (viés do presente) - ajuda a explicar por que tantas pessoas planeiam poupar “amanhã”, mas acabam por gastar “hoje”. Como demonstrado no mesmo estudo 1: pessoas com maior tendência para valorizar o presente mostram-se menos propensas a poupar ou a gerir as finanças com antecedência, preferindo gratificação imediata em vez de planeamento de longo prazo.
Inércia e adiamento
A inércia é um dos enviesamentos mais poderosos. Estudos 2 mostram que, quando é necessário escolher ativamente um plano de poupança, muitas pessoas simplesmente não escolhem. Cada pequeno passo, desde definir o valor, escolher o produto ou abrir a conta, aumenta a probabilidade de adiar.
Aversão à perda
A Prospect Theory (Teoria da Perspetiva), desenvolvida por Daniel Kahneman e Amos Tversky 3, mostra que tendemos a sentir as perdas com maior intensidade do que ganhos equivalentes. Na prática, isso significa que muitas pessoas preferem evitar perder 100€ a ganhar 100€, mesmo quando a decisão racional apontaria noutra direção.
Este enviesamento influencia decisões de poupança e investimento, levando-nos a adiar escolhas de longo prazo, privilegiar liquidez com menor retorno real e evitar soluções de investimento sujeitas a oscilações de valor.
Outros fatores que dificultam a poupança
A dificuldade em poupar não é apenas psicológica, é também prática:
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Pouca literacia financeira. A falta de compreensão sobre produtos financeiros, o desconhecimento de conceitos como os juros compostos, a diversificação ou o risco, aumenta a hesitação na hora de poupar ou investir. Quando algo nos parece complexo, confuso ou arriscado, o cérebro tende a optar pela inação. É, na verdade, um mecanismo natural de autoproteção;
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Mito dos grandes valores. Muitos pensam que não vale a pena começar com 20 ou 30 euros por mês e, por isso, acabam por não iniciar nenhum plano de poupança. Mas é precisamente a regularidade, e não o montante, que faz a diferença ao longo do tempo.
Como ultrapassar os bloqueios à poupança?
Mudar hábitos financeiros nem sempre exige mais esforço, muitas vezes basta alterar o contexto em que tomamos decisões. Um exemplo conhecido é o programa Save More Tomorrow 4, criado pelos economistas Richard Thaler e Shlomo Benartzi. A ideia é simples: em vez de pedir às pessoas que poupem já, o programa aumenta automaticamente a taxa de poupança sempre que o salário sobe. Como o rendimento líquido não diminui, o esforço quase não se sente e, por isso, a adesão é muito maior.
De acordo com o estudo publicado no Journal of Political Economy 5, 78% dos colaboradores convidados aderiram ao programa, 80% mantiveram-se ao longo de quatro aumentos salariais consecutivos e a taxa média de poupança aumentou de 3,5% para 13,6% em cerca de 40 meses.
Como poupar dinheiro: estratégias para o dia a dia
Existem algumas estratégias que ajudam a ultrapassar a dificuldade em poupar, ao mesmo tempo que são úteis para quem procura dicas de como poupar dinheiro ou como economizar dinheiro no dia a dia.
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Automatize a poupança para eliminar fricção
Programe uma transferência automática (ou débito direto) para um plano de poupança ou outro investimento logo após receber o salário.
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Comece com pouco, mas comece (10€/20€)
Não é preciso esperar por grandes valores para começar a poupar.
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Porquê? Começar com 10€, 20€ ou 30€ cria o hábito, o que é mais importante do que o valor. Uma vez instalada a rotina, aumentar o valor torna-se natural. A regularidade, mesmo de montantes pequenos, tem mais impacto a longo prazo do que grandes poupanças esporádicas.
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Defina objetivos concretos
Objetivos vagos não mobilizam ações. O cérebro responde melhor a metas específicas.
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Divida objetivos de longo prazo em metas intermediárias
Grandes objetivos podem parecer inalcançáveis, levando ao desânimo e ao adiamento.
Transforme intenções em hábitos
Em vez de encarar a poupança como uma privação, veja-a como uma ferramenta para aumentar a sua liberdade. Quanto mais cedo compreender que o dinheiro poupado cria opções, mais natural se torna colocá-lo de lado regularmente.
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Referências bibliográficas
1 Xiao, J. J., & Porto, N. (2019). Present bias and financial behavior. Financial Planning Review, 22, e1048.
2 Madrian, B. C., & Shea, D. F. (2001). The Power of Suggestion: Inertia in 401(k) Participation and Savings Behavior. Quarterly Journal of Economics, 1164, 1149–1187.
3 Kahneman, D., & Tversky, A. (1979). Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk. Econometrica, 472, 263–291.
4 Benartzi, S., & Thaler, R. H. Save More Tomorrow Program Overview. Disponível em:
5 Thaler, R. H., & Benartzi, S. (2004). Save More Tomorrow: Using Behavioral Economics to Increase Employee Saving. Journal of Political Economy, 112(S1), S164–S187.
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