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Entrevista a Pedro Araújo, Fundador e CEO da Seacliq

Vencedora dos Prémios Empreendedor XXI na categoria Agro Tech.

Entrevista a Pedro Araújo, Fundador e CEO da Seacliq | Banco BPI

Entrevista a Pedro Araújo, Fundador e CEO da Seacliq | Banco BPI

Vencedora dos Prémios Empreendedor XXI na categoria Agro Tech.

Há coincidências que dão frutos e levam uma empresa a ganhar notoriedade a nível internacional. Foi o que aconteceu com a Seacliq. A empresa portuguesa, vencedora dos Prémios Empreendedor XXI na categoria Agro Tech, começou os seus trabalhos no mundo das pescas graças a um desafio internacional. A experiência permitiu que a Seacliq sonhasse mais alto e apresentasse o primeiro e-marketplace dedicado ao mundo da pesca.


Como é que nasceu a Seacliq e porquê o enfoque nas pescas?

A Seacliq é uma subsidiária da Bitcliq, especializada no desenvolvimento do Marketplace que é a Lota Digital. A Bitcliq é uma empresa que surgiu com um espetro de atuação um pouco mais alargado, desenvolvendo projetos para a indústria, mas logo no início surgiu-nos um desafio para o setor pesqueiro. Tratava-se de ajudar uma frota de pesca industrial, com sede no Gana, em África. A Seacliq foi desafiada a criar uma plataforma tecnológica que os ajudasse a gerir as operações. Em conseguir saber as despesas associadas a todas as embarcações, de forma a estabelecer um preço justo e que fosse rentável. Isto porque o negócio funcionava um pouco ao contrário. Só faziam as contas aos custos operacionais depois da negociação e venda. O que fazia com que, em muitos casos, o pescado fosse vendido a baixo custo. O projeto implicava como que a gestão de seis microempresas (as seis embarcações).

Como é que esse cliente "descobriu" a Seacliq?

Foi uma coincidência, um velho contacto. Colocou-me o desafio e foi no timing certo. Este era «o» projeto que a Seacliq estava à procura - não só para ganhar nome e impulso internacional, mas também, e principalmente para nos permitir criar soluções diferenciadoras. Um ano depois a solução estava a ser implementada, com sucesso, nos barcos daquele que era o maior processador mundial de atum. A partir dessa data, a empresa conseguia fazer a gestão em tempo real, sabendo não só o que se tinha pescado, mas também o valor de cada tonelada de pescado.

Em que consistiu a solução?

Criámos um software fácil de usar nos barcos, para recolher a informação dos sensores ou dos próprios utilizadores - que são os membros da tripulação – e arrumar a informação de forma organizada, transmiti-la por satélite (de forma otimizada para não disparar os custos de comunicação), juntá-la na cloud e fazer a analítica necessária para dar os indicadores em tempo real.

O que se seguiu?

Depois do sucesso da gestão operacional, que foi o primeiro passo, os nossos clientes começaram a ver o potencial de começar a trabalhar a vertente da rastreabilidade. E a questão da sustentabilidade no setor. De repente tínhamos uma ferramenta que, além de permitir ao gestor tomar decisões, permitia ao comprador ter informações sobre o pescado que estava a comprar. Fomos nos apaixonando e conhecendo mais sobre a área e desenvolvendo a tecnologia e acrescentando mais funcionalidades.

Como surgiu a "Lota Digital"?

Em 2017, a Inmarsat, que é um dos maiores operadores de satélites a nível mundial e o maior da área marítima, convidou-nos a participar num encontro mundial para debater o futuro das comunicações por satélite, onde a Seacliq iria ser, na área do mar, a startup modelo. Mas havia um senão. Tínhamos de produzir um vídeo a mostrar a aplicação da tecnologia para ser apresentado na conferência. A proximidade do evento levou a que tentássemos encontrar algo em Portugal, em detrimento de África ou Ásia, onde tínhamos os projetos. Fiz alguns contactos, encontrei um retailer que se mostrou aberto à utilização da solução de rastreabilidade e um armador que se mostrou aberto a experimentar a solução. Isto foi o princípio da Lota Digital, ainda sem o ser.

Detetou então uma oportunidade de crescimento?

Sim. Começámos a perguntar aos pescadores se eles viam alguma vantagem em ter uma ferramenta de gestão operacional. Eles disseram "não, a nossa operação é tão pequena que não preciso disso para nada". O que realmente precisavam era de novas formas de fazer a venda do pescado, porque o leilão tradicional não agradava em pleno. E nós pensámos que esta poderia ser uma oportunidade de aplicar a tecnologia numa vertente da comercialização. Depois falámos com alguns compradores. Fomos validando a ideia e ela foi-se materializando. Percebemos que, além da rastreabilidade e da gestão, podíamos ter aqui um marketplace que liga compradores e vendedores neste contexto. Em Portugal há duas formas de venda de pescado: o leilão ou o contrato. Aquilo que nós oferecíamos era o melhor dos dois mundos, que era um contrato dinâmico.

Esse contrato é feito quando o barco ainda está em mar alto?

Sim. Neste momento conseguimos antecipar a venda para o período da manhã ou da madrugada. Assim que o barco captura pode colocar logo à venda. Os compradores são notificados e a venda pode ser feita antes de a embarcação chegar a terra. O que é bom para o armador porque é ele quem define o preço. Se não vendeu tem o leilão tradicional como segundo recurso.

Aquilo que acabámos por criar foi um marketplace que liga oferta e procura, em tempo real, antecipa o período de transação face ao que é tradicional e oferece toda a informação de rastreabilidade.

Está em funcionamento desde quando?

Desafiámos a Docapesca a deixar-nos fazer uma operação piloto em Portugal. Eles foram muito recetivos, perceberam que isto é o futuro e deixaram-nos fazer um projeto piloto, em colaboração estreita em Peniche, que está em operação desde Fevereiro deste ano.

Temos uma equipa de qualidade alimentar que está no porto de pesca a fazer a receção do pescado. Fazem a pesagem, verificam a qualidade e fecham o negócio.

Se houver algum problema o negócio não é fechado?

Sim, é rejeitado aquele lote e o pescador ou tem outro lote que cumpra os requisitos ou vamos fazer um procurement a um outro barco que tenha um lote equivalente. A tecnologia permite fazer isso de forma simples e automática. Para ajudar nesse processo (o da logística) a plataforma apoia-se em serviços de gestão de qualidade, e parceiros locais, que prestam os serviços de amanho, reembalamento e transporte capilar até à morada de destino final, de uma forma simples, LEAN e muito otimizada (indústria 4.0), oferecendo preços justos.

E planos para o futuro?

A prova do sucesso do projeto piloto reside no facto de a Docapesca já ter dado luz verde a que a Lota Digital seja implementada noutra lota - a de Cascais. Adicionalmente prevemos a implementação no Perú e Chile, através de um parceiro. Na Europa o avanço para um marketplace ibérico também está nos nossos planos.