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Liga BPI - Entrevista

Mara Vieira, treinadora do Valadares Gaia FC.

Liga BPI - Entrevista | Banco BPI

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Mara Vieira, treinadora do Valadares Gaia FC.

Mara Vieira é treinadora do Valadares Gaia FC, clube de futebol da Liga BPI que disputará a final da Taça de Portugal no próximo dia 18 de Maio, no Jamor.

A Mara começou a sua carreira como treinadora de futsal no Modicus e passou pelos escalões de formação do FC Porto, onde esteve durante cinco anos. Daí seguiu para o futebol feminino, no Valadares Gaia FC entre 2012 e 2014. Já nos quadros da Associação de Futebol do Porto como treinadora das seleções femininas distritais, passou pelo Fiães da II Divisão e, em janeiro, foi convidada para regressar ao Valadares Gaia FC que tinha já treinado. E regressou quase a iniciar a maior aventura da sua vida: grávida do Nicolau que virá ao mundo quase com uma bola nos pés, daqui a menos de um mês.

"Cheguei a ouvir relatos de mulheres mais velhas do que eu que se disfarçavam de homens para poder jogar futebol, em equipas masculinas."

Como será estar de volta ao Jamor, um palco mítico do futebol português, seis anos depois de ter conduzido o Valadares Gaia FC à sua primeira presença de sempre?

Mara Vieira: Estarei com um sentimento semelhante ao da primeira vez, na época de 2012/2013, em que também era pouco provável que chegássemos a uma final. Estávamos, na altura, na II Divisão e agora estamos na I, na Liga BPI. Não esperávamos, mas podia acontecer. Aconteceu e é um sentimento de grande alegria e de satisfação para todo o clube.

Neste momento, o Valadares Gaia FC tem muitas jogadoras nos escalões de formação a subir à primeira equipa, à Liga BPI. Esta participação na final é um prémio para toda a formação, por todo o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido. Há seis anos vi este projeto a iniciar-se no Valadares, estava a começar como coordenadora e treinadora da equipa sénior, e assisti ao crescimento da equipa. Passados seis anos, voltarmos a disputar uma final, a terceira do clube, o que é muito especial.

Vamos lá ver se o Nicolau não se decide a nascer no dia do Jamor!

Como irá conciliar a maternidade com a profissão de treinadora de futebol?

Mara Vieira: Tem de dar para conciliar como noutra profissão. Vou tirar a licença partilhada com o pai com quem, claro, vou dividir as tarefas. Tenho muito apoio da família e uma equipa técnica que me ajuda muitíssimo. Também do próprio clube que sabia que estava grávida quando me contratou em janeiro passado.

Nos treinos há questões de planeamento e outras que envolvem estar no campo. No campo, quero estar presente. Não posso dar os treinos por videoconferência. A altura do ano também ajuda porque estamos a chegar ao final da época e paramos até meados de agosto.

A gravidez está a correr muito bem, não foi impeditiva de trabalhar. Aliás, não é impeditiva de se estar a trabalhar, mesmo como treinadora, a não ser que exista uma restrição física grave ou uma gravidez de risco. A prioridade é sempre a criança e a saúde da mãe.

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"Esta participação na final é um prémio para toda a formação, por todo o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido."

O que torna o futebol especial?

Mara Vieira: Tudo o que envolve o jogo é o que torna o futebol especial: as emoções, o espetáculo, o grupo. Já treinei futebol masculino e feminino, vivenciei-o como jogadora no futsal, só percebe o que o futebol tem de especial quem já esteve em campo. Em Portugal, muita gente percebe a magia da modalidade, e agora, cada vez mais as raparigas. Porque o futebol durante muito tempo era muito restrito ao masculino, isso como o resto da sociedade.

Quando ganhou o gosto do futebol e começou a dar toques na bola?

Mara Vieira: Não me lembro que idade tinha quando comecei a jogar futebol. Recordo-me de jogar desde sempre, com o meu grupo de amigos - rapazes - e o meu irmão mais novo. Vivíamos numa vila, em Argoncilhe, Santa Maria da Feira, onde ainda é possível brincar na rua.

Tive a felicidade de jogar futsal em duas equipas diferentes: no desporto escolar, na Escola Diogo de Macedo em Vila Nova de Gaia, pois havia professores com essa sensibilidade o que refletia o papel inclusivo da escola. Em simultâneo, com 13 anos, jogava numa equipa sénior em Argoncilhe porque não existiam escalões de formação. Às vezes jogava ao sábado de manhã e à noite. Acabei por fazer todo um percurso de 18 anos como jogadora, sempre ligada ao futsal. Futebol só a 25 km de minha casa, no Boavista FC, no Porto. Como federada, infelizmente nunca joguei futebol; era uma coisa que gostava de ter feito.

Quando começou a achar que podia fazer do futebol profissão?

Mara Vieira: Licenciei-me em Educação Física e Desporto e, como existia uma opção de rendimento, especializei-me em futebol. Já nessa altura, gostava de tudo o que estivesse relacionado com o próprio treino do futebol. Comecei a ter noção de que era possível fazer carreira, mas apenas a tempo parcial porque em Portugal poucos são os treinadores, no futebol feminino, que têm a felicidade de poder exercer a tempo inteiro.

Por isso, também trabalho na área do exercício e saúde como personal trainer e ainda como gestora e formadora da metodologia de treino "Periodização Táctica by Vítor Frade". Em Valadares treinamos às 21h, três vezes por semana, porque todas as jogadoras têm outras profissões, não sou exceção. Não trabalho exclusivamente no futebol porque não tenho essa possibilidade.

"Tem de haver uma mudança de mentalidade no país que leve mais raparigas a praticar a modalidade."

Como levar mais mulheres ao futebol?

Mara Vieira: Como levar mais mulheres a praticar futebol é a questão fundamental. Primeiro, é necessária uma mudança de mentalidades nas próprias famílias. Existe um preconceito instituído de que o futebol é uma modalidade que não é dirigida às raparigas. Muitas famílias só levam rapazes ao futebol.

Não foi o meu caso. Os meus pais sempre incentivaram os meus gostos ou brincadeiras. Quando lhes disse que ia para o futsal, não acharam estranho porque já me viam a jogar na rua com os rapazes. Nunca foram jogadores, mas não me limitaram no que gostava de fazer. Na altura, havia pessoas espantadas por jogarmos bem. Vejo pais que proíbem meninas que gostam muito de jogar, o que é muito triste. Cheguei a ouvir relatos de mulheres mais velhas do que eu que se disfarçavam de homens para poder jogar futebol, em equipas masculinas.

Em segundo lugar, é necessário criar espaços nos próprios clubes, por exemplo balneários, para que as jogadoras integrem as suas equipas e mais tarde passem para equipas femininas. Uma vez que, até ao escalão de juvenis, rapazes e raparigas podem e devem jogar juntos. É incrível que haja treinadores nos clubes que não estão preparados para aceitar esta realidade. Já vi casos em escolas - quando dei aulas - em que os professores de Educação Física colocavam apenas os rapazes a jogar futebol, enquanto as raparigas se dedicavam a outra atividade qualquer.

Tem de haver uma mudança de mentalidade no país que leve mais raparigas a praticar a modalidade. O gosto das pessoas está diretamente ligado às suas vivências. Quem gosta de praticar futebol irá naturalmente ver os jogos. Num país em que a maior fatia do apoio ao desporto é reservada ao futebol, é estranho os homens gostarem muito e as mulheres nem por isso. A verdade é que as mulheres gostam e envolvem-se. É preciso, sim, terem mais oportunidades para praticar. Há muitas mulheres que vão ao futebol que nunca jogaram, mas gostariam de ter jogado.

Como vê a evolução do futebol feminino em Portugal? Onde vamos estar nos próximos cinco anos?

Mara Vieira: O passado projeta um pouco o que possam ser os próximos cinco anos. Há cerca de cinco anos, houve mudanças com vários projetos que estão a ser apoiados e desenvolvidos pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) juntamente com as Associações distritais e clubes, como o plano de desenvolvimento do futebol feminino. Assisti ao desenrolar deste projeto, já como treinadora e muitas das metas que se queriam alcançar, e planos intermédios, estão ser agora concretizadas. Existe também um maior apoio por parte da UEFA e da FIFA às Federações e, consequentemente, das Federações para as Associações distritais e clubes.

Nos próximos cinco anos prevejo uma evolução no número de jogadoras mais novas como tem sucedido até agora, mas para que haja muito mais qualidade na nossa Liga tem de se dar mais tempo para crescer - como dez anos. A carreira das jogadoras e aquilo que leva à excelência demora tempo a concretizar-se. Ter mais paciência, ver as jogadoras a crescer, ter clubes e treinadores preparados para as formar. E pouco a pouco, vamo-nos aproximando das outras Ligas da Europa; ainda estamos muito atrás, mas é o que queremos e vamos conquistar.